Disposição

Quem vê Adão Antunes dos Santos se alongando, caminhando na esteira ou levantando halteres fica admirado com sua flexibilidade e força de vontade em fazer os exercícios.

Adão Antunes dos Santos

Mais incrível ainda, é saber que toda essa disposição está distribuída em seus 80 anos. Ele e milhões de pessoas na terceira idade fazem parte de um seleto grupo que escolheu viver ainda mais, superando até dados do IBGE, que apontam a longevidade do brasileiro em 75,5 anos.

Adão já pode se considerar um vitorioso. Afinal, ultrapassou a média geral e também a expectativa de vida dos homens, que é de 71,9 anos. Sua preocupação com a saúde e em realizar atividades constantes para mente e o corpo, fazem com que ele acompanhe a tendência de envelhecer, mas com qualidade de vida.

No cotidiano, Adão acorda cedo, toma um café da manhã e, então, dá início ao dia. Junto da esposa, Itamira Jorge dos Santos, tomam conta de um bar. Para se exercitar ainda mais, caminha todos os dias. Às vezes pela manhã, outras, à tarde. Um trajeto que não segue um roteiro, mas não pode ser menor do que seis quilômetros, entre ida e volta.

Enquanto está no bar, conversa com os amigos e conhecidos do Bairro Copacabana, em Lages, onde mora há mais de 20 anos. Brincalhão, conta, aos risos, o quanto seu chegados o admiram e, ao mesmo tempo, se questionam como ele consegue ter uma vida tão ativa aos 80 anos. Esse resultado, Adão obteve depois que precisou mudar sua rotina, para superar alguns problemas de saúde, que surgiram há alguns anos.

Mudança de hábito

Adão diz que sofria muito com tonturas, por volta dos 70 anos, então, após uma consulta médica, precisou buscar métodos mais saudáveis. Foi quando começou a caminhar mais e fazer academia no Sesc, duas vezes por semana, de onde não sai sem realizar todas as sessões de exercícios.

Desde então, leva uma vida completamente saudável. Na academia, é querido por todos. “Dizem que sou exibido”, brinca Adão. Não foi somente seu humor que ganhou vida com as mudanças de hábito, mas, também, relata que deixou de sentir falta de ar, a diabetes está controlada e não sente mais dores ou tonturas.

O novo estilo de vida do senhor Adão não é exclusividade dele. Somente no Sesc, por exemplo, dezenas de pessoas, com mais de 60 anos, buscam participar de atividades físicas. Lá, além de exercitar o corpo, “exercitam” a amizade.

Turma de Ginática Sesc Lages

Atividades
para todas as "melhores" idades

Nas manhãs de terça e quinta, por exemplo, antes mesmo da instrutora Daniela Vanaz chegar, algumas senhoras já estão sentadas em frente à sala, à espera do início da aula. Conversa vai, conversa vem, elas começam a contar sobre os últimos acontecimentos, o que fizeram no fim de semana e mostram fotos nos seus smartphones. Entre um exercício e outro, a conversa continua. Num tom de descontração esse grupo comprova que tem muita jovialidade, diferentemente do que as pessoas pensam.

O exercício é apenas mais um ingrediente na vida destas pessoas, que mantém uma série de atividades para ter uma longevidade feliz e realizada. Para alguns, estar bem fisicamente vai além de uma academia ou ginástica. Estar bem, principalmente na terceira idade, é estar envolvido com as pessoas, com o mundo, se doando e sem deixar a fé de lado.

Fé e dedicação
  ao bem
    das pessoas

Para muitos, é essa fé que traz paz de espírito e uma consciência elevada. A dona Rosalina Bortolotto, de 73 anos, que o diga. Quem a vê em casa tricotando não imagina que, entre um trançar de agulha e outro pela lã, seu trabalho é todo dedicado a algumas crianças carentes do município. Ela produz blusas para crianças entre 7 e 8 anos desde antes de se aposentar. Somente este ano, dona Rosalina entregou 51 blusas.

Para ela é importante realizar esse voluntariado, pois sabe muito bem como é vir de origens humildes. Natural do Rio Grande do Sul, Rosalina chegou à Lages ainda jovem, com a família. Aqui batalharam e conquistaram seu espaço, sem deixar a humildade de lado. “Eu percebi que a gente tem de se doar porque, já fui muito pobre, e sei das necessidades”.

Essas blusas confeccionadas por ela são levadas para o Centro Espírita, que frequenta há alguns anos. Lá, conseguiu encontrar um sentido - e respostas - para a sua vida. Ela destaca que buscar espiritualidade é essencial para o viver, pois o universo depende da energia de orações ou rezas para funcionar e se manter unido.

Antes de ter um entendimento maior sobre seu papel, enquanto voluntária e, também, uma pessoa espiritualizada, dona Rosalina teve um ponto de inflexão em sua vida. Logo que se aposentou, no primeiro ano, pensou que estava de férias. Então, começou se sentir triste. “Parecia que eu não prestava mais para nada”. Servidora aposentada do INSS, Rosalina tinha sempre de estar com a cabeça ativa, pois havia muito trabalho e cuidado com o serviço.

O trabalho de voluntária já fazia parte do seu cotidiano, mas se revezava com sua rotina agitada. Foi, então, que decidiu procurar mais ocupações. Passou a ocupar seus o dia com o voluntariado na casa espírita, começou a fazer ginástica no Sesc e agregou mais trabalhos voluntários na Casa Colibri e na Apae. “Me doo, sim”.

Admiração

AD

MI  

RA

ÇÃO


Suas duas filhas ficam admiradas com tamanha disposição. Afinal, antes mesmo de abrir sua casa para o Correio Lageano, Rosalina havia ido abastecer o carro, calibrar os pneus e ajustar os últimos detalhes para uma viagem que faria à Florianópolis, onde teria uma consulta médica. Seu genro iria levá-la à capital, mas ela quem se encarregou de deixar tudo preparado.

Se tratando da sua casa, então, nem se fala. Ela diz que faz a faxina por conta, mantendo organizado do seu jeito. Mora com ela uma das filhas, que ainda é solteira, mas como fica sozinha na maior parte do dia, se dedicar a cuidar do seu lar. Dona Rosalina não gosta de sair muito, ou ir aos vizinhos. Deixa a interação social para suas atividades diárias, que começam logo cedo com uma caminhada na Avenida Dom Pedro II, seguindo pela Belisário Ramos e retornando pela Presidente Vargas. “Sei que a gente precisa se mexer para fazer bem a mente e ao corpo”.

À tarde, quando não está nas suas atividades, fica por casa. Gosta de assistir televisão, especialmente o Discovery Channel, no qual aprende muito. Mas se tem um programa que não perde quando está em casa é o horário do terço, no Canção Nova. “Rezo pelo universo inteiro, porque a gente não pode pensar somente em nós”. Segundo ela, as pessoas têm de orar muito e não se revoltar, para a energia tomar conta de todo o planeta.

Para dona Rosalina é preciso ter esse lado espiritual, não deixando o materialismo imperar. “Ter as coisas sim para viver, mas não pensar que aquilo é importante. O que importa é a saúde, a família e os amigos”. Por isso, se considera uma pessoa rica, pela e saúde e bens que o universo lhe deu.

Se alimentar também faz

bem
"Aqui em casa seguimos normas básicas de alimentação aliadas com exercícios para manter nossa qualidade de vida".
Hélida Eunice Wolff Zaccaron
Comida de casa para a casa

Estar bem mentalmente e espiritualmente são alguns dos pilares que tornam o envelhecimento algo melhor. Mas não é somente disso que o pessoal da terceira idade precisa e busca. O fator alimentação também influencia bastante na longevidade. Foi, nesse sentido, que dona Hélida Eunice Wolff Zaccaron, de 65 anos, voltou seus esforços para envelhecer bem. “Não parece que tenho essa idade”, brinca.

Com uma risada inconfundível e o humor nas alturas, ela e seu marido se preocupam diariamente em se alimentar bem. Isso porque sempre levaram uma rotina ativa, de muitas atividades e não querem parar. Para manter esse vigor não pode faltar uma comida bem saudável.

Hélida conta que essa mudança de hábito começou antes mesmo de entrar na terceira idade. Aos 40 anos, teve um problema grave na coluna, que necessitaria de uma cirurgia. Receosa com o procedimento, conversou com conhecidos e fisioterapeutas, e decidiu por não fazer a cirurgia. Para evitar que o problema aumentasse, começou a fazer atividades físicas.

Desde então, faz 25 anos que Hélida leva uma vida melhor. Enquanto não estava aposentada, saía do trabalho e ia fazer exercícios. Foi se sentindo bem, não precisando nunca daquela cirurgia. Hoje o problema da sua coluna está sobre controle. “Nem medicação mais eu preciso tomar”, comemora.

As atividades levaram-na a mudar, também, seus hábitos alimentares. Ela e o marido já cuidavam um pouco, devido ao controle de peso, mas nos últimos anos se voltaram completamente para a reeducação alimentar.

Convivendo

Para conhecer de perto alguém da terceira idade, ou você tem mais de 60 anos, ou convive com alguém próximo. Eu me encaixo nessa segunda opção, obviamente. E digo com certeza que é a melhor experiência que já tive na vida. Há pouco mais de um ano moro com minha avó e poder contar histórias semelhantes a dela é muito especial.

Muitos que irão ler essa reportagem podem sentir saudade e orgulho, pois sabemos que nem todos têm a oportunidade ter seus avós por perto. Eu mesmo não conheci meu avô, mas fico maravilhado com as histórias que minha vó conta sobre ele e o quanto ele poderia estar fazendo parte de todas essas atividades a disposição de quem tem mais de 60 anos.

Conviver com alguém mais velho é algo bem peculiar. Confesso que, apesar da minha tamanha teimosia, admiro muito a avó que tenho. Suas experiências, causos do sítio e de quando era mais nova, o acordar todos os dias com o rádio ligado na Clube - algo que já me habituei e até sinto falta quando ela não o faz - são de grande valia e me motivaram a entender de perto como pode a terceira idade viver bem nos dias atuais.

Os dados de longevidade mostram um cenári­o genérico. Somente ao conhecer de perto a vida do seu Adão, da dona Hélida e da dona Rosalina, é que podemos ver como há possibilidades de envelhecer bem. Mas não pense que isso é fruto de uma inspiração qualquer, para eles, o contato com outros da mesma idade, a proximidade com a família, filhos e netos fazem toda a diferença para que essas estatísticas aumentem cada vez mais.