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:: 17/07/2017 | Saúde

Aborto espontâneo: O luto silencioso

Aborto espontâneo: O luto silencioso

Texto:

Lages, 17/07/2017, Correio Lageano, por Camila Paes

 

 

Nos filmes, nas revistas, na televisão e nas propagandas, as imagens de mulheres grávidas são sempre perfeitas. Ninguém fala sobre como, muitas vezes, a concepção é difícil e como cerca de 20% das mulheres sofrem com abortos espontâneos nos primeiros três meses da gestação. Dessas mulheres, ninguém fala. Elas passam pela alegria e ansiedade da descoberta, as dores prematuras do parto e o sentimento de perder um filho, que nunca chegaram a conhecer.

 

 

O que essas mulheres mais sentem falta é a empatia. Como é o caso de Ana*, que passou por um aborto em abril do ano passado. No início de março, ela preparou uma surpresa do marido para revelar a gravidez. Ambos ficaram extasiados. Contaram para as famílias, fizeram planos e Ana era paparicada.

 

 

Após um leve sangramento, os exames confirmaram a perda do bebê. Ficou internada, tomou remédios para acelerar o parto, sentiu contrações e passou pela curetagem, procedimento que faz a limpeza do útero quando acontece o aborto. “E o que aconteceu depois? Nada. Ninguém mais agiu como se um dia eu tivesse passado por aquilo tudo. As consequências persistem. Tive complicações uterinas. Já fiz duas cirurgias depois daquela curetagem, e até hoje espero abraços de pessoas que eu considerava importantes para mim”, relembra ela.

 

 

Para Ana, ninguém liga para uma mulher que passa por um aborto. “É como se meu filho nunca tivesse existido. Ele foi desejado, teve amor. Mas empatia não existe”, ressalta. Agora, para tentar uma nova gravidez, Ana busca alternativas. Há muitos conselhos e muitas pessoas que não entendem realmente o que essas mulheres passam. “Quando escolhi ser mãe, eu escolhi ver a minha barriga crescer, gerar, e sou julgada por isso constantemente”, acrescenta ela.

 

 

Pensando nessa falta de suporte, a jornalista Priscilla Portugal criou um blog, chamado “Cadê Meu Nenê?”, que reúne relatos de mulheres que passam por dificuldades para engravidar e também a sua própria história. Desde 2011, ela tenta engravidar. Passou por diversos médicos, especialista e até mesmo uma fertilização in vitro, sem sucesso. O blog surgiu com incentivo das amigas e com o fato de que muitas mulheres passam por essa situação. “Saber que muitas pessoas passaram por isso me conforta muito, me inspira muito a continuar tentando”, ressalta Priscilla. O acolhimento é um dos pilares do site, assim como ter informação apurada, já que se encontram muitas inverdades na internet. “Quanto mais empoderada de informação, mais segura e tranquila a gente fica”, explica.

 

 

Para ela, o assunto é um tabu. Já se fala sobre liberdade sexual, aborto provocado. “As mulheres escondem suas histórias, por medo, vergonha, porque ficam muito sensíveis”, relata Priscilla. O que é preciso é o acolhimento, se sentir acompanhada e, principalmente, de informações verdadeiras. Atualmente, a jornalista consultou com um especialista que descobriu alguns problemas que podem ser tratados. Este é um novo capítulo do Diário da Não Gravidez de Priscilla e mais um passo para a realização da vontade de gerar um filho.

 

 

Após sofrer um aborto espontâneo no começo da primeira gestação, a administradora Andreia Ribeiro, 28, precisou do apoio da família e do marido para enfrentar o luto da perda. No final do terceiro mês, teve um sangramento e, após um exame, foi constatado que o bebê não possuía mais batimentos cardíacos. Foi para casa e só no dia seguinte, foi internada para passar por procedimentos para a retirada do feto. “Ali notei que o meu caso não era o único. Passaram muitas coisas pela minha cabeça e só quem já passou para entender do que estou falando”, relembra ela. Assim como Ana, foi internada e passou pela curetagem. O processo todo durou dois dias e quando chegou em casa, sentiu-se vazia.

 

 

O apoio foi fundamental para a recuperação. Marido, familiares e amigos estiveram do lado de Andreia. “Falar com mães que já passaram pela mesma situação foi incrível, poder dividir essa dor, até hoje me procuram para falar a respeito”, relata Andreia. Para ela, falta um apoio especializado para quem passa por essa situação. “Falta tudo, as pessoas acham que perdeu é só ir pra casa e fazer outro mas é bem mais do que só ter outro filho, tem a questão emocional e psicológica que fica muito frágil”, acrescenta ela.


 

Um ano após o aborto espontâneo, antes de começar um tratamento hormonal, Andreia descobriu uma nova gravidez. Durante os nove meses de gestação, seguiu recomendações médicas, fez o pré-natal corretamente. “Foi uma gestação linda, fiz tudo como sempre sonhei e como eu quis”, relata Andreia. Com o nascimento de Pedro Lucca, Andreia relata que se tornou uma pessoa melhor. “Quando eu olho para ele, vejo que tudo valeu a pena. Ser mãe realmente é maravilho”, acrescenta Andreia.

 

 

A psicóloga Gisele Agostini, que já trabalhou em maternidades, explica que o importante é dar espaço para que essas mulheres vivam o luto. Quando a família recebe a opção de enterrar o bebê, por exemplo, é muito mais favorável para o enlutamento. Dessa forma, ocorre um fechamento do acontecimento traumático.

 

 

Gisele relata que existem estudos que revelam que o aborto espontâneo gera muita culpa nas mulheres, principalmente se comparado ao aborto provocado. “É preciso um acompanhamento psicológico e diferenciar o quadro de luto, do depressivo ou até mesmo a evolução para um quadro de estresse pós-traumático”, conclui ela.

 

 

Foto: Vinicius Prado

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