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:: 19/05/2017 | Serra Catarinense

Suicídio não deve ser tabu na sociedade, para ser prevenido

Suicídio não deve ser tabu na sociedade, para ser prevenido

Texto:

Lages, 20 e 21/05/2017, Correio Lageano, por Vinicius Prado

 

Assunto gera polêmica porque, segundo psicólogos, as pessoas não sabem como trabalhar o tema, principalmente, com os filhos


A repercussão da série 13 Reasons Why, dividiu opiniões acerca do suicídio. Há quem considere importante falar sobre o assunto, mas há quem veja a necessidade de se ter cautela, devido ao impacto que a história pode causar. De modo geral, o tema sempre foi um tabu na sociedade, mas alguns psicólogos defendem o diálogo como a maior prevenção de suicídio, principalmente entre jovens.


A psicóloga e pedagoga Claudia Waltrick Barbosa comenta que o estigma relacionado ao assunto é um aspecto importante. “Durante séculos, por razões religiosas, morais e culturais o suicídio foi considerado um grande ‘pecado’, talvez o pior deles. Por esta razão, temos medo e vergonha de falar abertamente sobre esta problemática, que envolve a saúde pública”, comenta.


Isso faz com que barreiras se formem em volta dessa discussão, criando, assim, dificuldade em buscar ajuda, falta de conhecimento e de atenção sobre o assunto por parte dos profissionais de saúde e a ideia errônea de que o comportamento suicida não é um evento frequente. “Lutar contra esse tabu é fundamental para que a prevenção seja bem-sucedida”, diz Claudia.


Negligência_ Segundo a psicóloga, outro tabu que vem se estendo durante anos, e pode ser considerado um mito, é que se uma pessoa fala em suicídio, ela não comete. “Este pensamento é inválido”, enfatiza. Por isso, há de se considerar que o suicídio existe em várias formas, explica Claudia, e é importante identificá-los.


Tipos_ Tem aquele tipo, no qual o indivíduo não tem mais nenhuma perspectiva em sua vida e a única saída é mesmo o suicídio. “Quando o sujeito não consegue mais lidar com as coisas mais simples do cotidiano. Não aguenta mais viver, não suporta mais sofrer”, comenta. E além disso, tem aquele em que a pessoa acaba com sua própria vida, não somente para dar fim a si mesmo, mas também para “matar”, indiretamente aqueles que ficam. “Isto fica implícito nas cartas, que muitos deixam, colocando a culpa em um outro”, diz.


Esse último, é o mote da história da série, onde ao longo dos episódios, a personagem Hannah Baker (Katherine Langford) conta porque cada colega teve “culpa” na sua morte, deixando fitas. Mas há outras questões mais explícitas e intrínsecas, que precisam ser analisadas, principalmente, temas recorrentes como o bullying e o estupro.

 

Pais precisam se aproximar dos filhos e abrir diálogo

A psicóloga analisa que a série, da plataforma Netflix, não serve como gatilho. Mas todo o cuidado é necessário ao se deparar com o conteúdo. “Pode de certa forma implicar no aumento de um desejo que já vinha em sua mente”. Nesse sentido, Claudia nota que, assim como a série, o jogo baleia azul não é o verdadeiro foco, mas sim o estado emocional dos jovens.


“Os jovens de hoje estão cada vez mais fechados, presos em jogos virtuais e redes sociais”, avalia a psicóloga. Dessa forma, segundo Claudia, eles podem não se dar conta da vida real e ficar numa vida fantasiosa é mais fácil.


Além disso, a psicóloga considera importante os pais não se afastarem de seus filhos. “Os pais por muitas vezes, não conseguem ouvir seus filhos. É uma escuta que precisa ser melhorada”, destaca


Para a pedagoga, falar abertamente sobre os assuntos emergentes são importantes, e a visão de que falar sobre, desperta curiosidade em fazer, é falsa. “Devemos sim argumentar com nossos filhos, pois saberemos o que pensam sobre o assunto”.

 

 

Entrevista

 

Tadeu Süpptitz

Psicólogo defende a discussão sobre suicídio

 

Para o professor da Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac) e psicólogo clínico, Tadeu Süpptitz, também é importante falar sobre o suicídio, sem tabus. Especialista em avaliação psicológica, saúde mental e psicossocial, Tadeu observa que o tema não deve ser polemizado, mas sim amplamente discutido para que assim se previnam novos casos, principalmente entre os adolescentes.

 

Correio Lageano: A série 13 Reasos Why teve grande repercussão. Alguns concordaram com a história, outros não. Quando devemos falar sobre suicídio e por quê?
Tadeu Süpptitz: A questão do 13 Reasos Why (os 13 Porquês) trouxe essa discussão a respeito. Nós percebemos a própria questão do baleia azul, que começou como uma notícia falsa e incitou a curiosidade das pessoas, levando a conhecer aquelas regras e disseminando. Por outro lado, a série é completamente diferente, porque traz assuntos diferentes que a sociedade precisa discutir. Lá há questões de relacionamentos entre pais e filhos, homoafetividade, o bullying, a questão do jovem popular, o famoso do grupo e as questões relacionadas, também, aos transtornos emocionais. Enfim, uma variedade de situações. Alguns críticos colocam que ela incitaria o suicídio porque teria um certo sentido de vingança. Porém, eu não penso dessa forma. Eu entendo que para alguém dar fim a vida não precisa assistir a série. A internet estará cheia de situações, nós temos uma própria cultura regional de como fazer isso. Então, nós devemos falar sobre isso, e com os grupos específicos. Nós pais, por exemplo, temos de falar nas escolas, nos diversos grupos, nas empresas. Se nós não falamos disso, fazemos de conta que não estamos vendo. O baleia azul só veio dar nome a algo que ocorre há muito tempo. Nós vemos nos consultórios isso acontecendo o tempo todo. Então, nós temos de falar, mas de uma forma técnica.
 

De certa forma, o que vemos na mídia serve como gatilho, ou seja, pode estar a disposição da pessoa a qualquer momento?
Sim, e os gatilhos são vários. Por exemplo, as situações que levam alguém a cometer suicídio é um ato de desespero extremo, uma desesperança, pois desacredita da vida e não vê possibilidade nenhuma, ou um estresse muito intenso, que por uma atitude de impulsividade acaba fazendo essa pessoa cometer o suicídio. Claro que os transtornos mentais estão muito ligados a isso. Faz parte, mas essa ideia surge no inconsciente, a partir do momento que ela começa a entrar num certo ciclo de decadência. Eles dão sinais, falam, não diretamente. Como os mitos de quem fala não faz. Isso é um mito, pois faz sim, ou quem tentou uma vez não fará mais. Cerca de 40% vão tentar de novo. Esses mitos ficam no senso comum e se a gente não falar, as pessoas continuarão pensando dessa forma.

 

Neste ciclo, ao qual o senhor se refere, quando ele começa, até chegar no suicídio em si?
A internet é o grande veículo disso, pois traz essa possibilidade de ter contato com outras pessoas que passam pela mesma situação e muitas vezes desequilibradas. Como a gente viu, o jovem que foi preso na Rússia e queria fazer uma limpeza na sociedade. Então, eles se identificam. A questão da depressão, por exemplo, e os vários transtornos mentais te isolam da sociedade, você não se sente acolhido, os pais só trabalham, se preocupam com outras coisas, o namorado (a) abandonou e, então, se encontra um grupo de identificação. Esse é o segredo porque há uma conexão afetiva. Eles acham importante participar desse grupo. Tanto é que esse rapaz falou: “Eu acolhia essas pessoas, eu dava conexões a elas”. Esse é o fato que liga elas aos grupos. Procuram outros que se identifiquem com a mesma forma de pensar.

 

O caminho até cometer suicídio é longo ou rápido?
Normalmente é muito longo. Exceto essas questões que levam ao desespero intenso, mas o índice é muito menor. Passa por um processo, muitas vezes, de mais de um ano. Onde vai definhando, o estado depressivo aumentando, a ideia surgindo. Entre 10% a 18% da população mundial têm ideia suicida. Dificilmente alguma pessoa nunca pensou nisso. Então, podemos dizer que é algo que vai crescendo cada vez que se recebe um não. A tolerância a frustração leva a isso, também. Chega um ponto que essa pessoa acredita que não tem mais saída. O sofrimento moral é muito intenso. As pessoas falam em covardia, fazem um julgamento muito duro. Ouço dos pacientes que dizem não ter coragem, então, nesse sentido, seria corajoso cometer. Mas na verdade o que está por trás é um sofrimento. Se expressa na família: “Eu não aguento mais essa vida, minha vontade é sumir”; essa é uma frase de sinal muito importante. Porque o suicídio é uma fuga.

 

Como falar de suicídio, de maneira que não choque a sociedade?
Eu tenho uma palestra, a qual chamo de “Comportamentos de risco na adolescência”. Esse é o nome, não trago o nome suicídio, só que dentro dela eu falo. Explico a diferença de adolescência e puberdade, trabalhamos as situações de risco e quais são. Os grupos de apoio como a escola, a família, as amizades, instituições. Trago a questão da mídia, principalmente a internet, onde mostro números de horas de jovens usando a internet, que cresceu cada vez mais. Depois entro nas questões familiares, de como a sociedade abandonou nossos filhos e dão um tablet ou celular para essa criança. Também entro na questão de comportamento dos pais para com os filhos. A gente trabalha de uma forma proativa, mostrando situações de risco, os sinais que podem vir na juventude e como intervir. Eu esclareço essas pessoas, incito eles à mudança, que será uma atitude preventiva. Nós não precisamos falar sobre o suicídio, porque nesse sentido a gente concorda que pode chamar atenção. Sabemos que, aqui em Lages, cada vez que ocorre algo “espetacular”, aumenta o número de suicídios em seguida. Trabalhar em cima de situações positivas, aí está a maneira de lidarmos com essa questão.

 

 

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Foto: PopSugar/ Divulgação  e Vinicius Prado

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      Professor na Uniplac, Tadeu é especialista em em avaliação psicológica, saúde...
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